Imprensa

Por que a pandemia acelera a morte dos jornais impressos?

Os leitores de jornal, cada dia em menor quantidade, se esvaem. Eles temem a contaminação ao pegar no papel, até porque da gráfica até passar por debaixo da porta do assinantes, passa por várias mãos

Nada é mais sintomático nestes tempos de pandemia do que a reportagem da edição desta terça-feira (19) do jornal O Globo em que aponta a impermeabilidade do papel-jornal para acondicionar o coronavírus, mas que mesmo assim, os especialistas recomendam os devidos procedimentos de higiene na hora de manusear a edição de papel.

Os leitores de jornal, cada dia em menor quantidade, se esvaem. Eles temem a contaminação ao pegar no papel, até porque da gráfica até passar por debaixo da porta do assinantes, passa por várias mãos.

O Globo quer controlar a erosão já sentida bem antes da pandemia. O atual motivo apenas agrava a situação já difícil que atravessa a versão de papel dos jornais, não o jornalismo (diga-se de passagem).

Além do medo de contaminação, os leitores sabem que recebem um produto com cheiro de naftalina, de linguagem engessada, conservadora e com notícias que todos ficaram sabendo no dia anterior. Evidentemente, que muitos jornais impressos tentam oferecer algo além disso, mas com redações cada vez mais enxutas e substituídas por jornalistas inexperientes,  qualquer intenção de oferecer algo de qualidade esbarra na estrutura e no financiamento (principalmente, da reportagem).

Em dezembro do ano passado, a coluna do Ombusdman da Folha de S. Paulo atestou a triste situação de desaparecimento dos jornais impressos. A jornalista Flávia Lima escreveu sobre a queda de 80% dos leitores da Folha: “Em 2000, a Folha contava, em média, com 440.655 assinantes no formato impresso. Desde então, mais de 350.000 assinaturas foram perdidas no papel — mais do que toda a circulação atual da Folha”.

Ao mesmo tempo, ela destaca o aumento das assinaturas digitais, o formato impresso que pode ser lido em tablets e outros dispositivos, que tem sido uma saída viável para as publicações, desde O Globo, ao Estadão passando pela Folha e New York Times.

Neste ponto, outro jornal tem se sobressaído, o El Pais, que transformou a geografia de sua redação, confinou a edição impressa a um pequeno departamento na infra-estrutura do periódico e se transformou em grande hub de informação que “ainda publica em papel” como atesta o pesquisador Alexandre Lenzi, autor do livro “Inversão de papel” (Insular), meu contemporâneo no doutorado em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Desde a quinta-feira (14), o Diario de Pernambuco não circular mais em formato de papel. O mais antigo periódico da América Latina, fundado em 7 de novembro de 1825, anunciou em nota que a suspensão da produção é temporária e que voltaria após a pandemia. Na redação e no mercado publicitário, muitos não acreditam nesta versão.

O professor Pedro Aguiar, da Universidade Federal Fluminense (UFF) está realizando levantamento dos jornais impressos que estão sendo afetados pela pandemia desde 1 de janeiro, enquadrando entre os que 1) fecharam de vez; 2) suspenderam o impresso e continuaram no digital; 3) reduziram a frequência/periodicidade; 4) cortaram salários e/ou deram folgas e férias coletivas aos jornalistas e demais funcionários.

O estudo ainda é preliminar, porém ilustra o cenário que mostra-se crítico neste momento.

Jornais que fecharam

Correio da Paraíba (João Pessoa, PB)

Jornal Regional (Registro, SP)

 

Jornais que deixaram de imprimir e se tornaram digital

Metro Jornal (São Paulo, SP)

Metro Jornal (Vitória, ES)

Destak Jornal (São Paulo, SP)

Lance! (Rio de Janeiro, RJ)

Lance! (São Paulo, SP)

Aqui (Recife, PE)

O Estado de Mato Grosso (Cuiabá, MT)

Correio da Manhã (Rio de Janeiro, RJ)

Tribuna de Petrópolis (Petrópolis, RJ)

Jornal da Manhã (Uberaba, MG)

Diário de Araguari (Araguari, MG)

Midiamax

 

Jornais que reduziram periodicidade

O Vale (São José dos Campos, SP)

Folha da Manhã (Campos, RJ)

O Debate / Diário de Macaé (Macaé, RJ)

A Tribuna (Niterói, RJ)

Diário do Vale (Volta Redonda, RJ)

O Nacional (Passo Fundo, RS)

 

Jornais que demitiram jornalistas, cortaram  salários ou deram férias coletivas

O Estado de S.Paulo (São Paulo, SP)

O Globo (Rio de Janeiro, RJ)

O Dia (Rio de Janeiro, RJ)

O Tempo (Belo Horizonte, MG)

Diário de Uberlândia (Uberlândia, MG)

 

Evidentemente que muitos periódicos à morte aguardavam o sopro e decretar o fim. No Rio Grande do Norte, dois jornais ainda resistem, mesmo com  dificuldades de alcance no universo de leitores de papel ou de solvência junto a fornecedores e empregados: a Tribuna do Norte, de Natal e o Jornal de Fato, de Mossoró, com equipe, páginas e tiragem reduzidas. Com a pandemia, administrar esta situação tem sido o maior desafio para as empresas que insistem em praticar jornalismo neste formato.