Por Auris Martins de Oliveira
Em 2010, escrevemos um ensaio para um jornal da cidade de Mossoró-RN, com o título “O cenário socioeconômico como fator determinante no resultado das eleições”. Era uma disputa bastante acirrada entre Dilma Rousseff e José Serra. Para as eleições de 2022, tivemos a iniciativa de publicar “O estrangulamento como fronteira cíclica para as mudanças sociais e econômicas”, em um cenário de disputa eleitoral entre o então presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula da Silva, em uma disputa ainda mais apertada. Em ambas as análises, não abordamos pontos em defesa de nenhum dos lados, embora este autor tenha lado; desenvolvemos, porém, uma tese segundo a qual o cenário econômico favorável no primeiro caso e o ambiente de desastre econômico no segundo seriam fatores determinantes para a vitória e a derrota dos pleiteantes. Em 2026, não será diferente. É sobre isso que pretendemos discorrer nestas breves linhas.
Quem, a esta altura, faltando apenas dois ou três dias para a eleição do primeiro turno, já definiu seu candidato não mudará de lado em função de corrupção, escândalos ou denúncias; pelo menos, não a ampla maioria. O que definirá quem vencerá, diante dos números que cogitam empate técnico nas estatísticas dos diversos institutos de pesquisa, é a economia: emprego, renda, dinheiro no bolso, poder comprar um carro, uma moto, uma geladeira, viajar e dar a si e à sua família, minimamente, o que se pode chamar de dignidade.
Fica todo mundo ouriçado, esperando uma bomba na internet para definir a eleição em prol de seu candidato. A bomba é silenciosa e acontece nos portos de Pecém, Suape, Salvador, Santos, Rio Grande etc. A bomba que define a eleição para o cargo mais importante do país acontece anonimamente, com gente trabalhando diuturnamente, gerando riqueza, agregando valor às matérias-primas e exportando-as, além de atender ao mercado interno, com gente recebendo salário para poder comprar e fazer a roda da economia girar. O desenvolvimento econômico, o desempenho do emprego, da renda e do consumo, dentro de um sistema em que se tenha, repetimos, minimamente, dignidade para si e sua família: é isso que importa.
Debates, baixarias, vídeos com mentiras ou Fake News apenas demonstram a falta de caráter de quem está pedindo o voto do eleitor, mas, felizmente, não são suficientes para definir o resultado eleitoral final na urna. Na privacidade do voto, que é secreto, está a consciência de quem vai votar e vê sua vida piorar ou melhorar em função de um dos postulantes — ou de seus apoiadores — ao cargo maior da nação. Isso é o que define a eleição, sempre em um viés de elevado acirramento, como historicamente acontece no Brasil.
Essa reflexão sobre o desenvolvimento econômico, a piora ou a melhoria da renda e os níveis de emprego, por incrível que possa parecer, é feita pelo eleitor de menor renda. Esse, sim, sabe onde o sapato aperta. Boa parte daquele eleitor mais estudado, digamos assim, que deixou de pagar Imposto de Renda, cujo salário chega a R$ 5 mil, não faz essa reflexão; diz que o governo não fez mais do que sua obrigação ao isentá-lo desse desconto em seu contracheque. Muitos com esse perfil sonham em se tornar opressores de seus pares e dificilmente conseguirão, seja qual for o lado que venha a vencer a eleição; morrerão sonhando em ser, um dia, o opressor.
Uma outra argumentação importante é que os últimos oito anos foram marcados pela presidência dos dois grupos políticos em disputa: quatro anos de Jair Bolsonaro e quatro anos de Luiz Inácio Lula da Silva. Caso o país estivesse vivenciando um cenário de desemprego, filas para obtenção de alimentos e fechamento de fábricas, por exemplo, mesmo que esse contexto fosse associado ao governo Bolsonaro, a vitória poderia ser de seu filho, Flávio. Entretanto, considerando a dinâmica de retomada do desenvolvimento econômico, o resultado esperado, segundo essa perspectiva, seria a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que alcançaria, de forma inédita, seu quarto mandato presidencial.
Não foi nosso objetivo discorrer sobre os indicadores numéricos mais evidentes do desenvolvimento econômico brasileiro. Afinal, há uma corrente econômica que defende o teto de gastos e outra que sustenta uma participação mais expressiva do Estado na economia. Aprofundar essa discussão não constituiu o foco deste trabalho. Nosso propósito foi afirmar que ninguém pode retirar daquele brasileiro ou daquela mãe solo, na fila para votar, o direito de refletir seriamente sobre a própria vida, ainda que por apenas cinco ou quinze minutos.
É justamente esse perfil de eleitor que, felizmente, terá papel decisivo na definição de quem ocupará a Presidência da República neste cenário acirrado, como já ocorreu em outras ocasiões, conforme demonstrado em artigos anteriores de nossa autoria. O diretor do Vox Populi, o sociólogo Dr. Marcos Coimbra, denomina esse eleitor de BBB, caracterizado pelos “três Bs”: baixo interesse, baixa informação e baixo envolvimento. “Três Bs”, sim, mas pessoas que sabem olhar para sua luta diária, para o próprio bolso e para a mesa de suas casas.
Auris Martins de Oliveira – Professor da UERN, doutor em Ciências Contábeis e pós-doutorando em Administração Pública.

