Imagem: Disputa entre Álvaro Dias e Allyson Bezerra ganha novos territórios — 98 FM/Reprodução
A conta que a campanha de Allyson Bezerra (União) levou ao debate desta quarta-feira 2 tem um número mensal e outro anual. No mês, R$ 437.811,09 em vencimentos brutos pagos pela Assembleia Legislativa a Álvaro Dias (PL), a oito parentes dele e a dois antigos colaboradores. No ano, a projeção chega a R$ 5.253.733,08.
O confronto aconteceu no debate promovido pelo Grupo Dial Natal, que reúne as rádios 98 FM e Jovem Pan Natal. Allyson acusou o adversário de ter usado o período em que presidiu a Casa para efetivar familiares e pessoas próximas sem concurso público, e batizou o episódio com o nome que virou o centro da discussão.
“Álvaro Dias é conhecido pelo trem da alegria por ter se empregado na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte e ter empregado toda a família dele”, afirmou.
A acusação veio emendada a uma cobrança sobre propostas. “Sabe por que o candidato Álvaro Dias não trouxe uma proposta clara de emprego para a juventude, de emprego para o povo, de gerar desenvolvimento econômico? Porque a sua única preocupação, candidato, quando teve a primeira oportunidade, foi empregar sua família”, declarou.
Depois de citar nomes e valores, Allyson subiu o tom. “Esse, sim, é um dos maiores casos terríveis de uso da máquina pública, de coronelismo e de uso da caneta do poder público para benefício próprio”, disse. E arredondou a conta: “Ao todo, candidato, você é conhecido por ter empregado no trem da alegria em torno de meio milhão de reais. Meio milhão de reais que está aí dos cofres públicos do cidadão para a família de Álvaro Dias”.
Quem recebe o quê
A planilha distribuída pela campanha tem como base declarada o Portal da Transparência da Assembleia Legislativa e considera a competência de julho de 2026. Os valores líquidos do grupo somam R$ 296.843,82.
| Nome | Vínculo e cargo | Bruto | Líquido |
|---|---|---|---|
| Álvaro Costa Dias | assessor técnico administrativo | R$ 37.543,78 | R$ 25.002,52 |
| Humberto Costa Dias | irmão, assessor técnico | R$ 50.398,85 | R$ 29.331,77 |
| Anselmo Costa Dias | irmão, assessor técnico administrativo | R$ 45.131,22 | R$ 30.059,08 |
| Rosane Teixeira de Carvalho | ex-esposa, assessora técnica administrativa | R$ 36.068,90 | R$ 24.944,97 |
| Sérgio Augusto Dias Florêncio | primo, procurador da ALRN | R$ 43.995,51 | R$ 29.803,22 |
| Noya Maria Dias Florêncio | prima, analista legislativa | R$ 24.184,54 | R$ 17.183,80 |
| Silvana Medeiros Gurgel Dias | parente, assessora técnica administrativa | R$ 35.809,97 | R$ 24.787,28 |
| Leila Medeiros Brandão Florêncio | esposa de primo, assessora técnica administrativa | R$ 43.836,61 | R$ 38.186,45 |
| Regina Maria de Araújo Dias | esposa de tio, assessora técnica administrativa | R$ 36.068,90 | R$ 24.944,97 |
| Lúcio de Medeiros Dantas Júnior | ex-secretário pessoal, assessor técnico administrativo | R$ 34.695,62 | R$ 23.320,13 |
| Pacífico José Dantas Fernandes | ex-assessor, assessor técnico | R$ 50.077,19 | R$ 29.279,63 |
| Total mensal | R$ 437.811,09 | R$ 296.843,82 | |
| Projeção em 12 meses | R$ 5.253.733,08 |
Os valores brutos reúnem vencimento básico, vantagens, férias, auxílios e benefícios — por isso a quantia pode variar de uma competência para outra.
Uma estrutura montada entre 1997 e 2003
O material da campanha liga os pagamentos a um conjunto formado entre 1997 e 2003, período em que Álvaro comandou a Assembleia. A assessoria sustenta que ele participou da efetivação, sem concurso, de integrantes de um grupo de 193 pessoas.
As contratações não são novidade: em 2018, o Agora RN publicou reportagens mostrando que 193 servidores respondiam a ações judiciais relacionadas ao ingresso em cargos efetivos sem aprovação em certame.
Na ocasião, Álvaro deu a sua versão. Alegou que a Assembleia não tinha quadro funcional de carreira e que servidores vindos de outros órgãos foram enquadrados conforme os critérios então praticados pela instituição. Disse ainda que as relotações saíram de decisões colegiadas da Mesa Diretora, e não de iniciativa exclusivamente sua. Segundo ele, todos os funcionários alcançados pelos atos seguiram os mesmos critérios, houvesse parentesco ou não. À imprensa, chamou de “precipitada e irresponsável” qualquer condenação antecipada.
O que o Supremo já decidiu
O caso chegou ao Supremo Tribunal Federal pela Reclamação 26.774, apresentada pela Procuradoria-Geral da República contra atos da Assembleia que enquadraram em funções efetivas, sem concurso, servidores transferidos de outros órgãos e ocupantes de cargos comissionados.
Em março de 2022, o então relator, ministro Luís Roberto Barroso, julgou o pedido procedente. Ele determinou a cassação dos atos questionados por entender que contrariavam a Súmula Vinculante 43, e mandou a Assembleia tomar providências para regularizar o quadro funcional — resguardados o contraditório e as situações já protegidas pela coisa julgada. Barroso anotou também que os documentos disponíveis não permitiam examinar caso a caso a situação de cada servidor, e que havia entre eles pessoas aposentadas, exoneradas, afastadas ou falecidas.
É nesse ponto que a campanha de Allyson apoia a acusação: o percurso judicial longo teria permitido que parte dos beneficiários passasse à inatividade antes de a decisão ser aplicada por inteiro. Por isso, sustenta o material, pagamentos decorrentes dos vínculos contestados continuariam saindo dos cofres públicos.
A resposta de Álvaro
No debate, o candidato do PL não respondeu individualmente sobre os pagamentos nem explicou a situação funcional das pessoas citadas. Disse que o assunto ainda seria esclarecido e devolveu o ataque, cobrando explicações sobre investigações de contratos da Prefeitura de Mossoró.
“Esse processo que você está dizendo aí está sendo investigado e vai ser esclarecido totalmente”, afirmou.
Allyson leu a frase como admissão. “A verdade prevaleceu. Ele reconheceu agora que está sendo investigado no trem da alegria, esse processo gigante de corrupção na Assembleia”, declarou.

