20 de outubro de 1998

A morte de Elizeu Ventania

Internado no Hospital Tancredo Neves, repentista sofreu uma parada cardio-respiratória, às 11h30

Por William Robson

O violeiro Elizeu Elias da Silva, o Elizeu Ventania, 74, morreu ontem às 11h30 no Hospital Regional Tancredo Neves. Segundo o atestado de óbito, o artista sofreu uma parada cárdio-respiratória. Elizeu há um mês se internou no hospital por causa de deficiência pulmonar obstrutiva crônica ­­– um problema que atinge principalmente as pessoas que fumam.

A mulher de Elizeu, Benedita Neuma de Sena, muito abalada, disse que Elizeu era um fumante inveterado, mas que havia largado o fumo há alguns meses por recomendação médica. O corpo do mais conhecido repentista mossoroense ficou no velório do hospital até às 15h, quando foi transferido para a casa de seus filhos na Avenida Alberto Maranhão, bairro Bom Jardim, onde está sendo velado. A previsão é de sepultamento por volta das 10h de hoje, no Cemitério São Sebastião.

Reprodução da página de 20 de outubro de 1998 (baixe em PDF)

Elizeu Ventania sentiu cansaço na noite do dia 6 de setembro e foi levado para o Hospital Tancredo Neves. Como seu quadro clínico se agravava, teve de ficar sob cuidados constantes na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI). Em entrevista à GAZETA, o médico Palmério Rabelo havia explicado que o caso de Elizeu era complicado. “Ele pode ter uma melhora agora, mas pode piorar imediatamente. Por isso, dele ficar na UTI”, disse.

O violeiro ficou durante uma semana no hospital. “Ele foi para casa, mas teve de voltar para o hospital com pouco tempo depois”, disse Benedita de Sena. Elizeu voltou a apresentar deficiência respiratória. Segundo o atestado de óbito, a parada cardio-respiratória foi provocada por enfisema pulmonar. Da segunda vez, o músico estava no hospital desde o dia 4.

Amigos e admiradores de Ventania ainda organizaram um evento para angariar fundos para o tratamento, bem como cestas básicas, já que, apesar do seu talento, era pobre e vivia somente de uma aposentadoria de R$ 130,00.

Acervo:  jornal Gazeta do Oeste
Agradecimento: Rádio Difusora

 

Sem reconhecimento, Elizeu

criticava até os próprios repentistas

“Tenho vontade de mostrar minhas músicas novas em público, mas falta oportunidade”. Na entrevista que deu à GAZETA  no dia 19 de julho, Elizeu Ventania estava disposto a dar uma reviravolta em sua carreira. Decepcionado pela falta de reconhecimento por tudo que tinha feito pela cantoria em Mossoró, e por estar cego, Elizeu também mostrava-se revoltado com as brigas envolvendo repentistas mossoroenses.

Atualmente, o repente mossoroense é dividido em dois: o movimento encabeçado pelo presidente da Casa do Cantador, Luiz Antônio, e outra vertente mais moderna liderada pelo professor Aldacir de França. Elizeu achava-se excluído e ultrapassado, sem chance de mostrar o seu trabalho.

“O congresso de repentistas (organizado pela Casa do Cantador) só se preocupa em mostrar os violeiros atuais e esquece os antigos”, disse Elizeu, revoltado, na edição de julho. Esse congresso, considerado o evento mais importante da cantoria em Mossoró, reúne anualmente várias duplas de violeiros do Rio Grande do Norte e de outros Estados. Só que, aos poucos, vem perdendo prestígio merecido, por falta de um bom gerenciamento. O congresso, que chegou a reunir um público superior a 700 pessoas no passado, não passou de cem na edição de 98.

 

Violeiro morreu pobre e abandonado

Uma das figuras mais importantes da música em Mossoró morreu pobre, morando numa casa modesta na zona norte de Mossoró. Sobrevivendo com uma aposentadoria de um salário mínimo (R$ 130,00), foi desprezado pela sociedade e até mesmo pelos seus companheiros repentistas. Alguns ainda se manifestaram, organizando um show beneficente para conseguir cestas básicas, mas não passou disso. Cinco destas feiras foram doadas pela Petrobras.

O velório de Elizeu Ventania, em sua residência no Bom Jardim (Foto: Carlos Costa)

A situação em que Elizeu Ventania vivia era um reflexo exato da decadência da cantoria no Brasil. O gênero perdeu a referência com o público e, portanto, tem de se satisfazer com pequenas pontas na programação da Rádio Rural.

No Hospital Tancredo Neves, momentos antes do velório, o corpo de Elizeu Ventania estava na pedra ao lado de um caixão simples. Somente a família foi vê-lo. No velório na casa dos filhos (Elizeu deixou cinco), foram poucas as  pessoas que foram dar o último adeus ao mais importante violeiro mossoroense.

 

Músico deixou cem canções inéditas

Elizeu Ventania talvez seja o último poeta popular que levou o repente para os ouvidos das grandes gravadoras. Dos três LPs que lançou – nenhum remasterizado em CD –, o álbum “Canções de Amor” teve a melhor repercussão. Com o selo da Continental – hoje subsidiária da Warner Music –, Elizeu Ventania vendeu rapidinho 30 mil cópias. A música “A Voz do Prisioneiro” foi o hit entre os repentistas.

Capa do terceiro álbum de Elizeu Ventania

Adepto de um estilo tradicional de cantoria desde os 18 anos, Elizeu enfrentou a tempestade depois da bonança. Para melhorar o rendimento doméstico, montou uma banquinha no Mercado Público e começou a vender fitas com músicas novas e reproduzidas de maneira primitiva. Mas, a decadência da cantoria em toda a região o obrigou a fechar seu negócio e viver recluso em casa.

Decepcionado com a falta de reconhecimento, o violeiro buscou isolamento do público desde que ficou cego há 13 anos, em consequência de conjuntivite. Porém mantinha a esperança de que voltaria a enxergar, embora não tivesse condições de custear a cirurgia.

Mesmo assim, não parava de compor. Estava com repertório de cem músicas inéditas, todas registradas em seu gravador, mas que não foram lançadas porque Elizeu mantinha uma certa decepção ao movimento repentista local. O momento que tinha era ideal para compor porque dizia que a tristeza atualmen

te era a sua única forma de inspiração. “Depois que fiquei cego, larguei tudo na vida. Ela só é boa quando nós enxergamos, vemos o mundo. O mundo é uma inspiração para o poeta. Quando não vê, vive nas trevas”, disse em entrevista à GAZETA do dia 19 de julho.

 

OUÇA UMA DE SUAS MÚSICAS

MAIS CONHECIDAS

 

REPERCUSSÃO

Elizeu Ventania foi quem sustentou a cantoria em Mossoró, desde quando atuava na Rádio Difusora, com 17 anos. Foi o legítimo criador da cantoria de canção, que não passava dos cinco minutos”

Luiz Antônio, presidente da Casa do Cantador

 

Como criador do gênero “canções”, que substituiu os longos romances contados, e como um dos pioneiros do improviso  na radiofonia nordestina. Elizeu Ventania modernizou a cantoria  há quase meio século. E durante quase cinquenta anos foi ele o “rei das canções””.

Crispiniano Neto, poeta e repentista

 

Elizeu Ventania marcou muito a nossa música. Bartô Galeno também era um grande admirador dele. Ele chegou a gravar uma música de Ventania, “Folha Seca”. Elizeu retribuiu cantando uma belíssima canção de Bartô”

Martins Coelho, radialista

 

O poeta cresce quando morre”

De um garoto de 11 anos sobre Elizeu

 

As músicas de Elizeu Ventania tem sentimento e a maneira como tocava violão expressa isso. Elizeu era um grande músico”

Márcio Rangel, guitarrista

 

VEJA ALGUMAS POESIAS DE VENTANIA

 

OS LADRÕES ESTÃO SOLTOS NAS RUAS
Nosso mundo foi bom no passado
Porém, hoje só tem confusão
Furto, roubo, assalto e sequestro,
Criminoso, tarado e ladrão
Os ladrões estão soltos nas ruas
E a polícia não pode evitar
Se a polícia prender um bandido
Aparece um patrão para soltar

 

CHORANDO AO PÉ DA CRUZ
Eu fui um dia visitar o cemitério
Lugar de pranto, de tristeza e emoção
Fiquei sabendo que a vida é um mistério
Por uma cena que abalou meu coração

 

Foi lá que eu vi uma criança ajoelhada
Ao pé da cruz ao lamentar dizendo assim:
“Essa é a cova que mamãe está sepultada;
Mamãe, o mundo acabou-se para mim”.

 

INVERNADA NO SERTÃO
No meu sertão a chuva chega em fevereiro
E o fazendeiro se alegra a contemplar
E o vaqueiro se levanta bem ligeiro
Cela o cavalo e cuida logo em campear
O camponês bate e mama a sua enxada
Com a filharada dá começo à plantação
Quando é de noite relampeia, o trovão zoa
O quanto é boa a nossa vida no sertão.

 

DISCOGRAFIA

Canções de Amor: Disco com dez músicas, lançado pela Continental

Nascimento de Jesus: Segundo álbum gravado em parceria com o cordelista João Liberalino.

Chorando ao Pé da Cruz: Produzido no Rio de Janeiro, também com dez músicas

*Todos fora de catálogo.